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09 junho 2016

#Resenha: Dias Perfeitos - Raphael Montes


Ficha Técnica
Autor: Raphael Montes
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
Número de páginas: 280
Assuntos: Ficção, Policial, Nacional
Adquira: Submarino, Americanas

Téo é um solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e examinar cadáveres nas aulas de anatomia. Durante uma festa, ele conhece Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Ela está escrevendo um road movie sobre três amigas que viajam em busca de novas experiências. Obcecado por Clarice, Téo quer dissecar a rebeldia daquela menina. Começa, então, uma aproximação doentia que o leva a tomar uma atitude extrema. Passando por cenários oníricos, que incluem um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita, repleta de tortura psicológica e sordidez. O efeito é perturbador. Téo fala com calma, planeja os atos com frieza e justifica suas atitudes com uma lógica impecável. A capacidade do autor de explorar uma psique doentia é impressionante – e o mergulho psicológico não impede que o livro siga um ritmo eletrizante, repleto de surpresas, digno dos melhores thrillers da atualidade. Dias perfeitos é uma história de amor, sequestro e obsessão. Capaz de manter os personagens em tensão permanente e pródigo em diálogos afiados, Raphael Montes reafirma sua vocação para o suspense e se consolida como um grande talento da nova literatura nacional.

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T éo só queria que Clarice o ouvisse e compartilhasse dos mesmos sentimentos que ele, então decide provar a ela o valor do seu amor, que tudo seria uma questão de tempo...

Téo só tinha uma pessoa de quem gostava, Gertrudes, com quem sempre ficava a vontade e se irritava quando alguém tirava sarro dela. Porém há um detalhe, Gertrudes era um dos cadáveres utilizados em suas aulas de anatomia da faculdade. Ele também cuidava da mãe paraplégica, Patricia, que em sua cabeça não passava de uma coitada, condenada a monotonia e infelicidade, muitas vezes um estorvo.
Patricia obriga Téo a acompanhá-la em um churrasco de uma amiga, mesmo ele sendo vegetariano. Lá ele acaba conhecendo Clarice, uma moça extrovertida que fala o que pensa, em um primeiro momento Téo se sente acanhado mas logo começa a se interessar pelo comportamento dela. Após conversarem e ele observá-la atentamente, Téo percebe como a garota é seu extremo oposto e isso atiça ainda mais a sua curiosidade.
Ele pede o celular de Clarice emprestado com a desculpa de chamar um táxi e logo depois os dois se despedem. Ao chegar em casa, Téo não tinha certeza do que sentia, só pensava que ter o número de Clarice em seu celular já os tornava íntimos.
Agora era só uma questão de tempo até conseguir saber mais sobre ela: onde estudava, morava, com quem andava; tudo para tentar se aproximar da garota e conquistá-la aos poucos. Mas nem tudo sai como previsto e o rapaz se vê forçado a tomar uma atitude drástica. Clarice nem poderia imaginar o quanto tudo isso mudaria a sua vida...


"[..] quando já se julgava tão seguro de si, Clarice viera trazer algum sentido àquilo tudo - ou romper o sentido que ele mesmo havia criado. Ela o havia realocado no mundo. Téo continuava a desprezar a raça humana, mas ao menos agora era um desprezo desinteressando, quase piedoso. Finalmente, sentia amor." Pág. 99

Um dos pontos mais fortes do livro é como Raphael moldo o personagem Téo, aquele perfeito psicopata com uma imagem de bom samaritano, filho dedicado, orgulho da mãe, mas que por dentro esconde ma mente deturpada, sem escrúpulos, capaz das maiores atrocidades para realizar seus desejos ocultos. Dando uma visão privilegiada de uma mente doentia, fria e calculista, que acredita cegamente nos seus ideais, não importando o grau da loucura. Isso tudo deu densidade e realidade a história, deixando o leitor cada vez mais instigado e intrigado com qual seriam os próximos acontecimentos da mesma.

Não é uma leitura muito frenética, porém consegue atrair e muito nossa atenção. Narrada por Téo, a história consegue se manter sólida mesmo que, na maior parte do livro, tenhamos somente os dois personagens principais em destaque. A descrição das cenas foi feita de forma objetiva e sem floreios, um ponto positivo pois alguns livros policiais e thillers tem mania de utilizar descrições muito longas e cheia de detalhes que muitas vezes nem são necessários, o que acaba cansando e desanimando a leitura.
Mesmo não gostando muito de Clarice é inevitável não pensar sobre certas atitudes da garota. Será que se ela não tivesse agido de tal forma com Téo, teria escapado de tudo que aconteceu? Se tivesse cedido um pouco, teria escapado de suas garras?


"Téo falava de modo pausado, como alguém que tem mita certeza do que diz e não se importa com a opinião alheia. Ainda assim, foi forçado a aceitar que talvez o delegado suspeitasse de alguma coisa e que era isso que o deixava tão nervoso." Pág. 241


O final foi um dos ápices do livro, não sei se por surpreender ou por não cair no óbvio, provavelmente a segunda opção. Vi que esse foi um ponto que dividiu muito a opinião das pessoas que leram o livro. No meu caso, achei bem mais interessante poder mergulhar nas loucas teorias e argumentos de Téo, tendo o mesmo olhar que ele, do que o final que o autor escolheu. Tudo bem que não foi nada clichê, mas não consegui aceitá-lo, não depois de tudo que a personagem passou.
Talvez esse tenha sido exatamente o sentimento que o autor queria que seus leitores sentissem..

Com um estilo diferente de narrativa e uma história perturbadora, Dias Perfeitos mostra como as aparências podem enganar e esconder algo tenebroso, e que nunca sabemos quem se esconde por trás das máscaras usadas pelas pessoas.

Avaliação Final:

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